Novos ares na educação por Andrés Menéndez

CIO-SE 12 março 2021 - 17:37

Todas as vezes que vejo movimentos culturais como o Lambe-Sujo de Laranjeiras, que tem seu
início datado de 1860, me faz lembrar da escola. Não que as escolas sejam sujas, muito pelo
contrário. A lembrança vem porque ano após ano as coisas se repetem sempre da mesma
forma, tanto nas tradições culturais quanto na escola. Nas salas de aula temos um professor,
um quadro, um pincel, um conjunto de cadeiras voltadas para a frente e uma plateia que
pouco interage. As escolas, do jeito que conhecemos hoje, são tão antigas quando o Lambe-
Sujo e durante todo esse tempo não tiveram a capacidade de inovar. Poderíamos ficar horas
discutindo os motivos, mas é melhor a gente falar sobre novas necessidades.

Não mais de que de repente, um tsunami atingiu o mundo e nos obrigou a ficar em casa.
Tivemos que deixar nosso local de trabalho, nossos locais de lazer, deixamos de visitar amigos
e parentes. Tudo mudou. Até aqueles de tradição secular, como a escola, tiveram que mudar.
Ainda bem que a necessidade é a mãe da transformação e a pandemia obrigou a nos adaptar.

As escolas descobriram que existe tecnologia além do quadro, pincel e livros. Inserir outros
recursos tecnológicos deixou de ser um bônus e passou a ser uma questão de sobrevivência.
Recursos deixaram de ser usados apenas marketing a passaram a ser indispensáveis no dia a
dia escolar. O medo do novo teve que ser substituído pela coragem dos exploradores.
Transformação na escola, transformação nos professores e transformação dos alunos.
Computadores, câmeras, microfones, gravações, Meet, Zoom, Teams, formulários, planilhas,
documentos. Tudo isso foi incorporado, por todos, ao mesmo tempo. Arrisco a dizer que só
deu certo porque foi todo mundo ao mesmo tempo. Se uma escola isoladamente fizesse isso
talvez muitos pais tivessem trocado os filhos para outro lugar.

Assim passou a primeira onda do tsunami. Quebrou várias barreiras que encontrou pela
frente. Contudo, nem todas foram vencidas. Percebemos que tem barreiras muito altas e que
precisam de um esforço grande para que sejam transpostas. Como podemos chegar a alunos
que não tem equipamentos e nem banda larga? A afirmação que temos uma geração
totalmente conectada é apenas parcialmente verdadeira. Os meus filhos, os seus filhos talvez
sejam, mas existe uma parcela enorme da população que não possuem recursos financeiros
que permitam ter seus filhos incluídos digitalmente. A inserção das novas tecnologias na
escola, ao invés de incluir a todos, pode acabar por acentuar ainda mais a desigualdade
educacional. Entretanto, isto não pode ser usado como desculpa.

Na verdade, deve ser visto como uma oportunidade que nos é oferecida para melhorar a
educação. A UFS, por exemplo, para tentar fazer a inclusão digital de seus alunos criou um
aplicativo chamado “UFS em Casa” que disponibiliza todo o conteúdo ministrado nas aulas
sem que o tráfego que passa por ele seja tarifado para o aluno. Além disso, criou editais para
dar recursos financeiros para que o aluno comprasse um celular ou um tablet para ele poder
acompanhar as aulas. Sei que esta ação é apenas uma gota dentro de um oceano, mas cada
instituição precisa fazer um pouco para dar oportunidades iguais para todos.
Muitas pessoas falam em voltar ao normal. Talvez voltar ao normal seja bom para alguns
setores, mas não sei se será bom para todos. Talvez o novo normal seja melhor do que o
antigo normal. Descobrir o novo. Experimentar recursos. Viver novas experiências. Tudo isso
nos faz pensar se queremos ou não voltar a ser como era antes.

Eu não quero que o tsunami acabe na primeira onda. Estou à espera da segunda onda. Não
estou me referindo aqui à pandemia da qual ainda tenho muito medo, mas sim à mudança trazida por ela no contexto escolar. Não desejo que a escola seja reconstruída do jeito antigo e
nem gostaria que as aulas presenciais se convertessem apenas em aulas por videoconferência.
Temos tecnologia para mudar a velha escola, mas a infraestrutura deve melhorar, sistemas de
informação devem ser alterados, temos que incluir alunos que não tem recurso, temos que ter
professores capacitados nas novas tecnologias, e o mais importante: as práticas pedagógicas
devem mudar para incorporar os recursos que estão disponíveis. São oportunidades para
todos nós da área de tecnologia. Afinal de contas, a TI mudou totalmente nossos hábitos nas
últimas duas décadas. Algum dia essa mudança teria que chegar no ambiente escolar,
infelizmente veio com um empurrão, ou melhor, uma pandemia.